25.05.2010

O universo da música gospel

Segmento é o segundo em vendas de discos no Brasil

Visto no passado como um círculo fechado e com produções de baixa qualidade, atualmente o mercado de música gospel movimenta R$ 1,5 bilhão por ano e é o único segmento fonográfico que cresce em venda de discos no País. A informação é da Associação Brasileira de Produtores de Discos (ABPD).

O setor ainda sofre em razão da crise financeira global, que, junto com a pirataria, apresentou significativas quedas nas vendas nos últimos 7 anos. O universo gospel, no entanto, não se encaixa nessa estatística, e registra um avanço de 8% ao ano, ficando atrás apenas do tradicional segmento de rock.

Para o diretor superintendente da gravadora Line Records, André Luiz Dias, a explicação para o crescimento das vendas da música gospel está no fato de ela ter saído do âmbito da igreja para o circuito de shows em casas de espetáculos, teatros e até rodeios. “Há dez anos, os cantores do segmento gospel se apresentavam apenas em eventos ligados a denominações evangélicas. Hoje, eles estão em todos os lugares e principalmente em programas seculares de emissoras de televisão. Além disso, a qualidade da música gospel atualmente é um fator predominante para essa evolução. Os CDs e DVDs deste segmento não devem nada ao que é produzido pelos artistas seculares”, diz Dias.

Mais profissionalismo

Os cantores do universo gospel também aprenderam a usar as mídias para divulgação dos seus trabalhos, explorando muito bem, por exemplo, a internet, com sites e espaços em redes sociais. “É bom que se destaque também que temos mais programas de tevê, jornais, revistas, portais e sites especializados, além de um grande número de rádios apenas tocando o segmento gospel. Outro aspecto é que a maioria dos artistas do setor tem hoje um assessor que trabalha sua agenda ou a sua divulgação. Existem até escritórios especializado. Essas iniciativas levam a uma exposição mais profissional, com o artista sendo, inclusive, conhecido em outros segmentos. Tudo isso pode ser traduzido num aumento de vendas”, acrescenta o executivo da Line Records.

Devido à diversificação da nossa cultura, temos hoje o crescimento de muitos estilos na música gospel, como funk, pagode, sertanejo, rap, entre outros. Mas o interior da igreja ainda prevalece. O mais consumido é o estilo “adoração”, mais ligado à pregação ou ao próprio culto. Também é muito forte o estilo “pentecostal”, mais carregado de palavras proféticas. O pop gospel aparece em terceiro lugar e agrada muito ao público mais jovem.

Novos caminhos

Outra característica do universo gospel é que os cantores independentes conseguem vender 30 ou 50 mil cópias em 1 ano. Para a gerente de Marketing da Line Records, Cely Manhães, o grande diferencial da música gospel é o público fiel da igreja. “Ele é o responsável pelo crescimento do segmento e é através dele que este vai crescer ainda mais. Uma prova disso é que todas as grandes gravadoras internacionais têm os seus selos destinados ao público cristão. A música gospel é um grande instrumento de evangelização”, afirma.

Um relatório da Federação Internacional da Indústria Fonográfica (IFPI, na sigla em inglês), revelou que a venda de música digital cresceu 12% no mundo em 2009, representando 27% da receita do setor. Em 2008, esse patamar era de 21%. “Essa novidade também vai favorecer a música gospel. Novas ações estão sendo desenvolvidas pelas gravadoras do nosso segmento”, revela Cely.

Pirataria

A pirataria atrapalha também, e muito, o segmento gospel. As gravadoras são unânimes ao destacar que as vendas poderiam ser bem maiores. “Num determinado momento de 2008, a música ‘Faz Um Milagre Em Mim’, do Regis Danese, foi a composição mais executada em todas as rádios do Brasil, em todos os segmentos. Na região de maior concentração do comércio popular de São Paulo, no bairro do Brás, todo vendedor ambulante de CD ou DVD pirata tinha o Regis Danese. E não só dele, mas também das cantoras Cassiane e Aline Barros, entre outros. Da mesma forma, no Rio de Janeiro, o fenômeno acontecia no mercado popular da Uruguaiana, no centro da capital fluminense”, conclui Dias.

Origem

A palavra “gospel” vem do inglês, derivada de "God-spell", que significa "boas novas", numa alusão à palavra Evangelho, as "boas novas ao mundo". Ainda que possa abranger um campo da música muito vasto, com muitos estilos e nomes variados, todos possuem uma mesma essência e raiz: a música cristã negra dos Estados Unidos.

Por David Telles
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